Por esta altura do ano, fui habituada a ver aqui por casa, prateleiras decoradas com taças de marmelada e frascos de geleia num símbolo de reserva para a próxima estação.
Essas iguarias eram feitas em grande ritual pela minha Avó e Tia-avó ocupadas por longas tardes de vagares, de conversas amistosas e gestos peculiares. Sentadas na cozinha perto da janela, a luz iluminava-lhes o rosto que fora lindo outrora, com marcas de vidas pautadas de história. Tranquilamente pelas suas mãos brancas oscilavam os frutos ásperos e pálidos num descascar vacilante, transpondo-se de cestas de vime para luzentes alguidares de barro num som de dança constante. Para um lado iam cascas e sementes, e para o outro, quartos de marmelo num empilhar desigual.
Depois de frutos banhados, cozidos e esmagados abriam-se pacotes pardos de açúcar, que eram vazados sobre o disposto, como um abafo dos céus.
Passado algum tempo, fumegavam panelas ao lume perfumando o ambiente de um aroma ácido, doce e forte, que se entranhava na casa como um aconchego ao anunciado frio da estação.
Por fim, toda a porção era distribuída pelas taças, momento alto da azáfama, pois era chegada a hora de eu poder rapar e lambuzar-me nas sobras quentes e lânguidas do doce agarrado às panelas. Ouvia alguns ralhetes e recomendações, mas o momento era sempre de prazer e brincadeira, que terminava em risos e satisfação.
Hoje quando confeciono este doce, não o faço com o mesmo apuro e rotina, mas envolvo-o nas lembranças e no sentido do aconchego do lar e da família.
Ingredientes: (Por cada kg de marmelo)
- 1 kg de marmelo
- 750 g de açúcar
- ½ Limão (sumo)
- 1 Chávena de água.
Descascar os marmelos e cortar aos quartos. Juntar o açúcar, o sumo de limão, a água e deixar macerar. Levar ao lume até começar a criar ponto. Retirar triturar tudo com a varinha, deixar arrefecer um pouco, colocar em taças, deixar secar e cobrir com papel vegetal pincelado de água-ardente.




